terça-feira, 16 de junho de 2009

CANTE ALENTEJANO I

                                  



                           AS ORIGENS DO CANTE







                               
                                     Cante Alentejano I

Qual a origem deste solene e reverencial cante Alentejano, monótono e triste, majestoso e imponente ?. O que podemos dizer é que nele sobressaem formas dos antigos modos gregorianos, como o mixolídio, o frígio e o eólio, por exemplo nas modas “ Meu Lírio Roxo, Vamos A Cantar os Reis e Serpa do Alentejo”; que o cante Alentejano é todo em tons maiores: que o soluço eclesiástico, de uso tão frequente na idade média, também se usa em algumas modas Alentejanas, como por exemplo. “ A Ribeira do Sol Posto “; que o trítono, suprimido pela revolução musical schõnbergiana, no Sec. XX existe também em algumas modas alentejanas, como em “ Ao Romper da Bela Aurora “: que o acorde incompleto de tónica e quinto, também em uso no mesmo século, se utiliza nas modas Alentejanas; que há muitas modas que principiam pela subdominante, o quarto grau da escala maior diatónica; que no Sec, XV os frades da Serra da Ossa, após terem frequentado as escolas de polifonia clássica em Évora, fundaram depois em Serpa, além do Convento dos Paulistas, escolas de canto popular, razão porque esta vila é uma das terras em que melhor se cante, e que, tendo a conquista do Alentejo aos Mouros sido feita com soldados do Norte do País, que aqui permaneceram até à sua consolidação, estes, conhecedores já do fabordão, o deviam Ter ensinado aos Alentejanos, razão por que este cante é cantado geralmente só por homens.

Uma coisa é certa: a inegável tendência e as aptidões que tem o povo Alentejano para o cante, especialmente para o cante a duas vozes, como o seu .
Depois do que ficou dito, as modas mais características serão aquelas que nos dão os traços mais salientes da sua estrutura musical e poética. Por exemplo: a moda. “ Meu Lírio Roxo “, porque está construída num modo mixolídio, com estribilho, uma das particularidades mais salientes em toda a musica popular folclórica; a moda “ Pesca-me Uma Margarida “, com o já anteriormente referido soluço eclesiástico, ou pausa para respirar, separando uma ou mais sílabas da mesma palavra: “ Ao Romper da Bela Aurora “, como trítono, a que já fizemos referência, e as modas construídas nos modos frígio, eólio, etc.
Muito está ainda por dizer e esclarecer do ponto de vista musical, acerca dos cantares Alentejanos. Pelo que sabemos das suas origens, temos de concluir que são muito antigos, de influências modais inseridas nos esquemas da música tonal, harmonizada embora de modo simples, caracterizando assim a sua própria identidade e modelo. Serão fabordôes deficientes, isto é, onde falte uma das partes ? Uma polifonia do Sec. XV, suai generis, adaptada ao povo ? Uma transposição do sistema modal para o tonal e da homofonia para a polifonia ?. Segundo a tese de que o povo assimila para depois transformar, qualquer das hipóteses se pode admitir.
O certo é que o cante Alentejano permanece inalterável há mais de um século (pelo menos), e as pequenas diferenças que se encontram na mesma moda são do tipo local, não alteram as suas principais características. Revelam sim, formas de ser e de falar de algumas terras, e mesmo a sua cultura, servindo até, em certos casos, para enriquecer as próprias modas quando essa influencia incide no ponto e no alto. Estes dois elementos da equipa de interpretação do cante Alentejano podem inventar, improvisar, dentro dos limites impostos às próprias regras de interpretação, como por exemplo, não semitonar e não exceder certos intervalos melódicos, e é nessa improvisação que se encontram especialmente as diferenças. Também acontece que à modas construídas sobre outras modas, de cadências semelhantes ou iguais, em especial quando na moda está inserido um modo antigo, como o frígido ou o eólio.
Muito haveria ainda que dizer, do ponto de vista sociológico e antropológico, devido às profundas marcas que eles imprimiram nos Alentejanos. Onde estes se encontram, aí estão as suas inesquecíveis modas, a traduzir o amor e a saudade, a alegria e a dor, que a todos uniam comunitáriamente. A vida rija e dura que o Alentejano sempre levou foi suavizada, embalada pelos seus tristes, dolentes e tradicionais cantares.
Outros CantosPara além do Cante outras formas folclóricas florescem no grande Alentejo. Dentre elas as mais significativas serão sem dúvidas as saias e as cantigas de despique e cante ao baldão.

"Do Castelo do Redondo
Avista-se o Alandroal..."
Implantadas em toda a zona interior do Alto Alentejo, as saias são aos mesmos tempo um canto e uma dança. De caracter mexido, atrevido, por vezes mesmo brejeiro, o jeito alegre e descontraído das saias propiciam um contraste flagrante com a simplicidade austera e melancólica do Cante. Ao contrário deste, exclusivamente polifónica, as saias incluem uma variedade considerável de instrumentos musicais.
As saias tem exercido profunda influencia sobre a generalidade de grupos de música popular, mesmo aqueles da zona do Cante. A confluência das influências destes dois tipos de folclore resultou no aparecimento de grupos "híbridos", anatemizados por alguns mas que alcançaram bastante sucesso a nível nacional. Exemplo ultimo é o Grupo de Cantadores de Portel, cuja versão da moda "O Passarinho" foi um sucesso de vendas em todo o país.

Texto extraído da internete.

1 comentário:

CARLOS Emanuel Martins disse...

Interessantíssima esta dissertação. Como alguém que tem gosto pelo cante alentejano e pela ciência musical, com particular interesse pela Harmonia enquanto componente daquela, aprendi muito com este texto. Parabéns, amigo.